Há investigadores de Vagos a contribuir – e muito! – para a evolução da ciência a nível nacional e global. Rafael Catarino Castro é um deles, sendo estudante de doutoramento em Ciências Farmacêuticas ao mesmo tempo que assume o papel de investigador do REQUIMTE (Rede de Química e Tecnologia), no núcleo de Química analítica e nanomateriais, e de membro do projeto FOODSENS - Transferência de Tecnologias para reduzir riscos alimentares.
Quem é o Rafael Catarino e o que faz?
É um bocado difícil definir-me. Sou de Vagos, tenho 25 anos e sempre fui ligado à ciência e à música. Na música comecei com 6 anos numa escola de música em Ílhavo, aos 10 anos vim para a Banda Vaguense, aprendi a tocar clarinete e fui para o conservatório onde fiz o 8.º grau (grau máximo) e hoje dou aulas de iniciação aqui na Banda para além de estar no Coro Litúrgico de Lombomeão. Na parte científica…
Essa parte da formação académica já não foi cá.
Não, estudei em Ílhavo. Os meus pais têm um café em Ílhavo e eu fui logo para lá porque aquilo é perto da escola e facilitava nos transportes.
Mas é vaguense.
Sim, sou. Às vezes, a brincar, eu costumo dizer que moro em Vagos, o meu coração é de Lombomeão mas estudei em Ílhavo. Os meus avós são de Lombomeão e eu sempre estive muito ligado.
E esta ligação à ciência? Como surge?
Eu sempre fui muito curioso e sempre tive muita vontade de descobrir coisas novas. Eu adorava ir para o meu avô para o quintal e, quando aparecia uma moeda velha, eu adorava perceber como é que aquilo tinha aparecido, perceber um pouco da história. Se calhar não tem a ver com nada mas eu sempre tive essa curiosidade de descobrir coisas – e na primária andei logo no clube da ciência onde víamos cebola ao microscópio, fazíamos um vulcão “artificial”… sempre gostei de ciência. Fiz o curso de Ciências e Tecnologias e depois fui para Ciências Farmacêuticas. E entrei no curso já com ideia de fazer investigação nessa área…
Já estava definido logo aos 18 anos?
Há muitas saídas nas Ciências Farmacêuticas. Comunitária que é o que nós conhecemos das “farmácias de rua”, a farmácia hospitalar que são os farmacêuticos que trabalham no hospital e auxiliam os médicos na prescrição de medicamentos, as análises clínicas, na distribuição, a própria indústria que possui investigação e distribuição e, por fim, a investigação propriamente dita – de carreira universitária.
Porquê algo ligado às Ciências Farmacêuticas?
Sempre gostei de química e eu achava que era um curso com uma forte propensão para a investigação, a universidade do Porto ainda facilita mais isso.
A investigação não é algo muito “falado”. Como é que ficou convencido a escolher uma carreira dessas?
Para mim, as outras atividades acabavam por ser um bocado repetitivas. Nas farmácias comunitárias já sabemos que vem aquela pessoa, que quer aquele medicamento… o que não é verdade mas era o que eu pensava na altura, antes de fazer o estágio. Os farmacêuticos comunitários fazem, muitas vezes, o despiste das próprias doenças e reencaminham as pessoas para os centros de saúde. Hospitalar já não era tanto assim, eu fiz estágio em 3 hospitais diferentes e todos eles tinham as suas particularidades. Na investigação era o que eu achava que poderia ser menos monótono porque todos os dias acabava por ser uma coisa nova – era a ideia que eu tinha porque nem sempre é verdade [risos]. Para desenvolver um trabalho é preciso meio ano, um ano… ou mais
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Para mim, que não estou ligado ao mundo da investigação, parece-me um número respeitável…
Sim, é um pouco. Quando fui para a universidade, quis experimentar um pouco de todas as áreas através de pequenos estágios de verão. Experimentei farmácia comunitária – fui para duas, de contextos diferentes –, estive num laboratório de análises clínicas, estive na Associação Nacional de Farmacêuticos, estive na área hospitalar… mas como tinha a ideia da investigação, fui falar com um professor que gostava muito, o prof. João Santos, de inorgânica, que trabalha com química – a minha área favorita. Fui integrado na equipa dele, aprendi a fazer as coisas e, hoje, ele é o meu orientador de doutoramento.
Para ser mais fácil, explique-me o que faz neste momento.
Neste momento, aplico esses nanomateriais para química analítica, ou seja, para determinar, por exemplo, poluentes orgânicos. O trabalho que estou a fazer agora é a determinação de microtoxinas em produtos processados. Também faço controlo de produções farmacêuticas e tenho trabalhos sobre isso… no fundo, é usar essas nanopartículas e as características das mesmas para detetar o que quisermos. É muito nessa linha. Outra investigação que estamos a fazer neste momento é de controlo de qualidade de produtos farmacêuticos usando técnicas vibracionais como o NIRS (Near-infrared spectrocscopy ou Espectroscopia de infravermelho próximo, em português) ou o Raman. São técnicas em que usamos uma fonte de luz e as moléculas vão vibrar… consoante a composição geral do alimento, se houver uma molécula diferente do que é suposto, ele consegue detetar isso. Depois usamos ferramentas quimiométricas que comparam as amostras com contaminante e sem contaminante – e algumas dessas ferramentas já consegue determinar qual o contaminante.
Como é que isso se pode aplicar no dia-a-dia?
O que temos procurado fazer é aproveitar esses nanomateriais para criar dispositivos portáteis. No fundo, eles vão emitir uma cor e nós queremos, através dessa cor e com testes rápidos, perceber se ainda existe ali algum contaminante. Num trabalho que temos sobre deteção de antibióticos… imagina uma vaca doente. O agricultor precisa de lhe dar um antibiótico que depois acaba por passar para o leite mas também precisam de saber a partir de momento em que podem voltar a colher leite sem resíduos do antibiótico. Em vez de colhermos o leite e levarmos para o laboratório, para técnicas altamente complicadas, queremos criar testes rápidos para serem feitos no local. Procuramos sempre algo mais prático, mais portátil, em todos os trabalhos que desenvolvemos.
No fundo, higiene e segurança alimentar.
Mas nos produtos farmacêuticos a ideia também é essa. Um trabalho que fizemos foi sobre o líquido para as lentes de contacto que, se tiver peróxido a mais, a pessoa pode ficar cega e, se tiver peróxido a menos, não vai fazer uma limpeza eficiente. Então, através da cor da sonda, podemos perceber o nível de peróxido do líquido.
De todos estes trabalhos… quais foram os mais importantes?
O primeiro que foi uma coisa muito simples. Os pontos quânticos são ótimas sondas mas têm um problema: reagem com tudo. Se pensarmos no leite, o leite tem imensas coisas que podem reagir com estes pontos quânticos e é aí que entra a aplicação de ferramentas quimiométricas. Nós começámos a juntar diferentes nanomateriais na mesma sonda e através da combinação de sinais com diferentes radioatividades, ajudava-nos a perceber o analito. E o trabalho foi criar um perfil. Nesta linha, um outro trabalho que fiz mais à frente foi sobre o Folifer, um fármaco que é muitas vezes administrado a grávidas. Tem ácido fólico e ferro e nós fizemos uma determinação simultânea, uma coisa que não era usual, normalmente media-se apenas um ou outro.
E a aplicabilidade disso?
Dava para perceber se o fármaco estava bom. Porque se houver, por exemplo, ácido fólico a mais, pode levar a intoxicação das pessoas. E a ideia era ser um teste fácil… a maior parte dos testes são de cromatografia que demoram 3 a 4 horas. Pensemos no meio industrial onde 3 ou 4 horas para perceber se aqueles medicamentos estão a sair bem, é complicado. Se pudermos colher um e, em 5 minutos, conseguirmos saber o resultado… não é melhor? E evita o desperdício.
Investigações que podem ter muitas aplicações mas que podem passar despercebidas.
Sim… mas podem vir a aparecer. O teste de covid entrou no mercado. O exemplo da vaca é algo fácil de implementar no mercado.
Testes que são antecedidos de meses de investigação.
Horas, dias… a maior parte demora meses.
Existe alguma investigação que gostasse mesmo de fazer?
Se calhar o meu maior sonho é ver alguma coisa a chegar ao mercado. Fazer esse tipo de testes e perceber que efetivamente são úteis às pessoas. Quanto à investigação, pelo menos para já, andarei sempre à volta desta área.
Está a tirar doutoramento?
Sim, ganhei uma bolsa. Até aos 29 vou andar dentro da investigação. A vontade depois é de continuar mas, infelizmente, a nossa área é um bocado precária. É preciso andar a concorrer a bolsas e é como estávamos a dizer, um trabalho não se faz em dias. A mim acabou por correr um pouco bem porque eu entrei muito cedo no núcleo de investigação.
Como se gere uma agenda onde se mete a investigação, as aulas na banda vaguense, ser membro da Filarmónica e ainda o coro?
Eu vou e venho todos os dias, de comboio. São mais ou menos duas horas para cada lado que muitas vezes são aproveitadas a ler ou a dormir. Se conciliarmos bem o tempo, dá para fazer tudo.
Mas também tem um gosto pela política, foi deputado substituto pelo PS.
Sim, sempre despertou interesse. A política surge porque temos de perceber o mundo que nos rodeia e o que queremos para o mundo. E a política enquadra-se nisso, de estarmos informados e procurarmos o melhor para aquilo que é nosso. Um dos sonhos que eu tinha na política era o de servir mais as pessoas e não os partidos. Acho que as perguntas que fazia em sede de Assembleia Municipal eram nesse sentido, perguntas mais práticas.
Se chegasse a um cargo de decisão em Portugal, o que mudava no âmbito da investigação?
A própria precariedade que existe no setor. Eu percebo para estimular mas acho que não é benéfico para a própria investigação. Por outro lado, fazer mais colaborações com as industrias porque há muito conhecimento gerado nas faculdades que não é aplicado. É culpa da investigação que não tenta chegar às pessoas mas também culpa de quem gere os fundos de não procurar levar essa informação às empresas e à comunidade.
Qual é a importância, para si, da investigação?
A investigação é importantíssima na minha vida porque é esta descoberta constante. É um trabalho inacabado, uma vontade de descoberta por mais.w
Tem ainda o projeto Explica Pharma. O que é?
Agora tem estado um pouco parado mas a Explica Pharma – da qual sou co-fundador – surgiu na faculdade, entre um grupo de amigos, na ideia de literacia para a saúde. Por exemplo, um genérico… a maior parte das pessoas não sabe o que é ou como é que foi produzido, pensa que é mais fraco – o que é mentira. Ou explicar que um medicamento é diferente de um suplemento alimentar. Ou interações entre chás e medicamentos que podem, alguns, serem mortais. No fundo, o que procurámos fazer foi informar as pessoas porque achámos que era uma necessidade. Entretanto acabámos o curso e ficou um pouco esquecido mas era algo que gostava de recuperar. Não quero apontar datas mas gostava.