Projeto "Caixa Aberta"

“Esta é a nossa forma de ir à janela bater palmas às instituições”

Cultura
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Artur Rosa, Fábio Rocha, Ângelo Valente e Sofia Nunes. Música, teatro, animação, superpoderes, idosos, cuidadores e muita vontade de ser feliz. Metemos tudo numa caixa, agitamos com vigor e alegria, abrimos a caixa e… *puf*! Temos um projeto que promete percorrer o país e levar boas sensações a lares de idosos e a quem tanto se privou durante o último ano e meio.


Como, quando e porque é que surgiu o projeto Caixa Aberta?

Artur Rosa (AR) – Isto começou com um telefonema do Fábio para mim. O Fábio, em Vagos e artisticamente falando, tem um trabalho meritório com os seniores. A Universidade Sénior, os cavaquinhos… ele já trabalha com este público há alguns anos e sentia que esse mesmo público está enfiado nos lares e não tem acesso a cultura. Não podem sair, não podem aceder a nada… e o projeto surgiu da vontade de fazer alguma coisa para não os deixar esquecidos.


Isso foi quando?

AR - No ano passado. Em maio, junho… o Fábio ligou-me, partilhou a ideia e eu achei logo espetacular. Sentámo-nos, começámos a definir o que queríamos em concreto, que tipo de arte queríamos levar a essas pessoas e, ainda numa fase embrionária, lembrámo-nos do Ângelo e da Sofia que são dois monstros a trabalhar com este tipo de público e que são nossos amigos – temos essa vantagem. Porque não fazer uma parceira? Podíamos alavancar o projeto, dar muito mais qualidade porque eles tinham uma experiência e conhecimento que nós não tínhamos e misturar o que eles têm e esta parte artística, musical, teatral que nós temos. Foi com esta perspetiva que lançámos o desafio à Interage (Ângelo e Sofia). E foi andando, consoante a nossa agenda.

Fábio Rocha (FR) – Acho que é importante dizer que esta ideia foi partilhada com o município ainda numa fase embrionária e eles apoiaram e deram força ao projeto desde o início. E quando nos juntámos à Interage… era um Renault Clio, como eu tenho, e tornou-se um…

Sofia Nunes (SN) – …um Tesla. [risos]

Ângelo Valente (AV) – Nós pegámos na ideia deles e, todos juntos, adaptámos à nossa. O que nós fazemos ali é um bocado do que eu e a Sofia fazemos no dia a dia quando damos workshops, formações, quando vamos a uma instituição. Nós misturámos isso à arte, o que veio reforçar aquilo que é a nossa missão. E, atenção… o nosso espetáculo tem muito humor mas há ali coisas que são ditas que ficam na cabeça das pessoas.

SN – Quando olhamos para as pessoas e conhecemos a história de vida delas – e quando falamos de pessoas, dizemos de todas. O Fábio, o Artur, o Ângelo, os meus pais – nós achamos sempre que têm histórias incríveis. Muitas vezes têm histórias que põem a um canto os Titanics ou os Romeus e Julietas desta vida. Há aqui um facto que eu acho que é comum aos quatro… nós admiramos imenso as pessoas das instituições e, depois desta pandemia, ficámos a admirar ainda mais. Há pessoas que ficaram presas em lares sem terem cometido crime nenhum. Nós até vivemos isto e também foi difícil para nós mas a verdade é que estávamos em casa com o nosso namorado, a nossa mulher, os nossos filhos… as pessoas das instituições deixaram de fazer isso para proteger quem lá estava.

AV – E até a repressão social que existia para com estes trabalhadores. Nós, durante o confinamento, visitámos mais de 60 lares e soubemos de maridos de cuidadoras que foram despedidos porque a mulher trabalhava num lar.

SN – Lembram-se quando íamos à janela bater palmas aos profissionais de saúde que também têm todo o mérito? Esta é a nossa forma de ir à janela bater palmas às instituições. E não podemos bater só na pandemia, devemos continuar a bater agora.


Voltando um bocado atrás. Podem falar um pouco sobre a construção da estrutura do espetáculo?

FR – Isto dá-se por eu estar ligado à música, o Artur estar no teatro e estes dois estarem a contar ao país inteiro as histórias que viveram durante o período em que trabalharam num lar. As histórias que viveram, os exemplos de vida que conheceram no lar e no país inteiro. Cada um de nós deu ao projeto o que dá na vida normalmente. 

AR – Tem também a ver com a narrativa. A narrativa deles já era esta de valorizar as pessoas, os funcionários e os utentes. Nós achámos que faria todo o sentido mas como é que podemos chegar a essas pessoas e, no final do espetáculo, dizer que eles são os verdadeiros super-heróis? Nada como sensibilizar as pessoas com casos reais, com nomes ficcionados. E mostrar às pessoas que isto acontece mesmo. E acabar em apoteose com esta questão do superpoder do cuidar, dos funcionários, e da coragem, dos utentes. É em crescendo para que no final haja esta apoteose…

AV - …simbolizada num abraço que também simbolizava todo este afastamento. Isto ainda não acabou e era importante arranjarmos maneira – através da estrutura dos abraços – de nos irmos conseguindo abraçar.

AR – Acho que também é importante referir que a narrativa foi e vai mudando. A Caixa Aberta também é isto… é uma coisa muito crua. Nós temos um guião guardado que está sempre a sofrer alterações com cenas que vão acontecendo.

AV – Há outro pormenor também importante. A pessoa que está a ver sabe que é o centro da história. E é raro ires a um espetáculo e sentires isso.

AR – E não estamos a falar de uma pessoa que mora em casa… estamos a falar de pessoas que estão nas mesmas condições que o público que está a assistir. Obviamente de uma forma muito lúdica porque eu acho que a comédia e esta parte humorística é a melhor forma de conseguirmos captar à atenção e, ainda assim, sensibilizar as pessoas. E nós divertimos à brava… mas, efetivamente, damos aquilo que temos e que criámos mas saímos de cada instituição a receber muito mais do que isso.

AV – E não estávamos à espera de uma reação tão boa…


Com quem é que testaram?

SN – Com as pessoas que iam passando aqui no estacionamento do Parque Ciência Inovação [risos].

AR – Nós não fizemos nenhum test drive. Foi muito… aliás, a aposta do município de Vagos também foi essa. Foi ter um projeto piloto. Isto não foi um espetáculo que o município contratou, foi criada uma parceira para apostarem neste projeto com agentes da cultura e da parte social de Vagos. Foi uma aposta nossa, da Interage, da SiosLife e do município.


Essa aposta do município foi como?

AR – A aposta foi de contratualização de espetáculos nas IPSS. Mas uma aposta em algo… eles não tinham visto o espetáculo. Nós dissemos que tínhamos isto, o espetáculo é isto, é isto que vamos levar às pessoas….

AV – E individualizando aqui para mim e para a Sofia… é a primeira vez que fazemos algo na nossa terra. E isso é uma cena fixe… é um projeto que irá andar pelo país e que partiu daqui. Nunca vamos deixar de dizer que foi aqui que nasceu e que alguém confiou quando quase nem existia. Mas é uma confiança que também é responsabilidade.


Que espetáculos já fizeram em Vagos?

FR – Calvão, Boa Hora, dois em Ouca e o último na Santa Casa da Misericórdia.


Foi fácil marcar espetáculos com as instituições?

AV –Não foi fácil e isto é algo que custa. Há instituições que disseram que só para janeiro porque não têm uma manhã para nos receber. E também começámos numa altura sensível – que não foi de propósito, até fomos nós que marcámos diretamente com as instituições – mas eu estou-me a marimbar para essas coisas, até adorava que isso desse polémica. A agenda das instituições não é a agenda política, eles estão lá o ano todo. E nós temos a consciência tranquila. Aliás… nós até estamos a perder por estarmos a fazer nesta altura.

AR – Exatamente. Vejam a comunicação que é feita nesta altura. Ninguém comunica nada e nós percebemos isso.


Que feedback têm recebido?

SN – Foi muito positivo. Aliás, quase desde as primeiras sessões que tivemos pessoas de fora a perguntar quando é que vamos lá. E ainda não viram o espetáculo… acho que só viram os sorrisos na cara das pessoas. Acho que o feedback superou as expetativas, não tinha consciência de que iria fazer tanto sentido para aquelas pessoas. Se calhar porque começou a ser tão banal para nós que, de repente, ver pessoas a chorar, rir à gargalhada, chorar outra vez e a aplaudir… foi uma surpresa.


Já têm convites para ir a outros lados?

SN – Sim mas ainda não está nada fechado. Isto era um projeto piloto mas agora que está criado – e ainda temos mais cinco sessões para fazer me Vagos – vamos apresentar a esses municípios que já nos procuraram e que querem saber mais.

AV – O nosso trabalho na Interage é muito virado para os municípios. O projeto Abraços com História era comprado pelos municípios e oferecido às IPSS. Tal como a formação que damos, que é dada de igual forma. Os municípios vão acreditando mais nisto e há uma responsabilidade social que está a mudar. A relação dos municípios com as IPSS há muitos anos que tem sido só de dar dinheiro… e isso tem de acabar! Tem de acabar porque o trabalho do município na área social é cada vez mais avaliado pela prestação das IPSS e nós vimos que durante a pandemia, os municípios foram a salvaguarda de muitas IPSS. Mas quem fala nos municípios pode falar de empresas. E agora já não tem de ser em cada uma das IPSS, podem juntar-se várias num sítio.





CAIXAS À PARTE 



Como é que surge esta recente parceria com o Minipreço?

Ângelo Valente – Eles vieram falar connosco para sermos embaixadores deles na área do envelhecimento. E é incrível porque tens uma marca enorme que está a fazer uma aposta fortíssima na valorização social, que pega em nós e nos quer levar para chegar ao público mais velho. Para nós é incrível… e o que lhes dissemos foi que não queríamos só fazer publicidade, para isso não valia a pena contarem connosco. Para contarem connosco tinham de oferecer os nossos projetos às pessoas… e eles já compraram o Pedalar sem Idade e vão oferecer na Chamusca como uma espécie de teste.

Sofia Nunes – Esse é um ponto importante porque o Minipreço está a ser um exemplo de responsabilidade social, algo que ainda não é muito disseminado. Ou seja, as empresas tentarem fazer o bem na sociedade em que estão inseridas. É uma ideia que noutros países já está mais enraizada e em Portugal já começa a surgir. As empresas não têm de ficar só pela publicidade dos produtos, podem fazer o bem e reencaminhar algum desse dinheiro para fazer a diferença na vida das pessoas. Seja através dos nossos projetos, seja através de outros.

AV – Nós falamos muito sobre os municípios mas pode ser uma empresa a oferecer estes projetos a uma instituição.


Mas a parceria com o Minipreço surge para uma dinamização com os vossos projetos.

SN – Basicamente, eles convidaram-nos para sermos embaixadores. E nós negociámos isso para fazermos projetos concretos que possam fazer a diferença na vida das pessoas mais velhas. Este primeiro será um passeio de bicicleta numa instituição que eles escolheram. Ou seja, a parceria não será com fotografias bonitas mas através desta responsabilidade social.




Como surgiu o nome “Caixa Aberta”?

Artur Rosa – Vou-te ser muito sincero. Inicialmente…

Fábio Rocha – Diz a verdade.

AR – Mas é isso que eu vou dizer…

FR – Mas não digas essa verdade! É uma vergonha [risos]

AR – Não é nada. Foi daí que partiu e onde fomos buscar todas as ilações a seguir. Nasce do conceito de fazermos isto no exterior e o palco ser uma caixa aberta de uma carrinha. [risos] Foi daí. Caixa aberta não é só caixa aberta… é uma coisa muito crua, sem barreiras, onde não há segredos. De uma caixa pode sair música, pode sair teatro. Inicialmente foi efetivamente isso. Entretanto o projeto já teve outro dimensionamento mas o nome surgiu daí e nunca foi alterado. E cada vez acho que faz mais sentido.

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