Como nasceu a tua ligação à música?
Começou desde cedo, na Banda Filarmónica, aos 9 anos de idade - mantive essa ligação ativa até aos 20 e poucos. Aos 11 anos entrei para o conservatório de Aveiro, fiz os meus estudos e, mais tarde, prossegui esses mesmos estudos na Escola Superior de Música do Porto e tirei um mestrado em Ensino de Música na Universidade de Aveiro. E agora estou a tirar um doutoramento também na Universidade em Aveiro, também relacionado com Música. Pelo meio ainda passei por Engenharia Civil mas a ligação à música falou mais forte.
Aqui em Vagos estiveste à frente da Orquestra Ligeira? Estiveste na origem?
Sim. Foi em 2006 ou 2007 se não me falha a memória. Estive na formação da Orquestra Ligeira e ainda estive três ou quatros anos à frente… aliás, ainda me lembro de termos estado numa das Galas Vaga d’Ouro. Foi uma das primeiras atividades da Orquestra, na verdade.
Andando um pouco no tempo… quando é que começaste a tocar com artistas nacionais como os Azeitonas ou o Miguel Araújo?
Comecei a tocar com os Azeitonas em 2010. Entrei para a banda e logo um dos primeiros concertos que fiz foi no Teatro Sá da Bandeira que resultou no DVD ao vivo e que contou com a participação de Rui Veloso e outros convidados. Foi uma experiência muito gratificante e ainda hoje me mantenho ligado à banda. Quando entrei nos Azeitonas eles já existiam há uns 10 anos mas ainda não eram muito conhecidos… já tinham dois ou três discos lançados mas depois vem aquele ‘Boom’ do “Anda comigo ver os aviões” no final de 2011, penso eu, que deu essa visibilidade à banda que permitiu começarmos a tocar em todo o lado.
Os Azeitonas foram a primeira experiência, digamos, nacional?
Foi tudo por volta desse ano. Em 2010 toquei com os Azeitonas, comecei a tocar com os Expensive Soul com quem me mantive até cerca de 2014, toquei com Pedro Abrunhosa… foi um ano que me deu várias experiências a este nível, com grandes bandas, com uma grande estrutura.
Atualmente estás a trabalhar sobretudo com o Miguel Araújo.
Essencialmente com o Miguel, exatamente. E com os Azeitonas. Mas depois também faço outro tipo de trabalhos e outro tipo de colaborações com outros artistas que me solicitam. Por exemplo, agora estava de volta dos arranjos para o Dino D’Santiago e a Orquestra Clássica do Sul, para um concerto que vai haver agora em agosto. Vão aparecendo sempre alguns projetos…
Como é que fazes com sobreposição de agenda?
Em relação aos concertos, obviamente que há uma hierarquia de prioridades… obviamente dou prioridade ao Miguel porque tenho responsabilidades acrescidas porque sou diretor musical do projeto dele - tenho de estar sempre presente. Depois arranjamos forma de, quando há coincidência, arranjar um ou outro substituto nos outros projetos. Quando há menos concertos mas solicitações de trabalho… vejo como estou de agenda. É preciso saber dizer não e, por vezes, tenho mesmo de rejeitar alguns trabalhos porque não consigo aceder a todas as solicitações.
O que é que faz um diretor musical?
Tem várias formas de atuação, por assim dizer. Na questão dos concertos de música ao vivo há uma gestão do projeto que, no caso do Miguel, tem múltiplas dimensões porque ele tanto toca a solo - e aí eu não tenho qualquer tipo de intervenção porque ele é mais do que auto-suficiente - como toca noutros formatos. Por exemplo, o Miguel fez recentemente um concerto com uma banda filarmónica, neste caso do Troviscal, e eu intervim para fazer os arranjos. Na próxima semana vamos tocar com a banda completa e com a Orquestra de Guimarães e eu também tive de fazer os arranjos. Ou seja, sempre que há intervenção de vários músicos à volta do Miguel, eu faço essa gestão musical. Os arranjos, programo os ensaios, entre outras coisas. Depois há outra parte, a do estúdio, onde faço a produção, orquestração e arranjos - com o Miguel - quando se metem instrumentos de sopro, cordas, vozes… Um dos exemplos foi agora o novo single do Miguel com a Cláudia Pascoal, o “Estou por tudo”, onde fiz essa produção.
Vamos aqui às tuas sugestões… qual é o estilo musical que mais gostas?
Não consigo definir um estilo, propriamente. Nesse aspeto sou um pouco eclético e diversificado naquilo que ouço e julgo que toda a gente tem essa predisposição para ouvir coisas diferentes. Eu tenho por vários motivos, não só pela questão do gosto musical mas também pela parte profissional, o querer descobrir várias sonoridades que eu sei que me vão enriquecer musicalmente. Mas pronto, essas referências acabam sempre por partir de coisas com que me identifico, naturalmente.
Nesta lista podemos encontrar de tudo um pouco.
Sim, muita coisa. Desde o jazz ao blues, ao pop, coisas mais viradas para a música contemporânea, música eletrónica… alguma coisa de música africana. Há aqui um bocadinho de tudo mas mais dentro do universo do jazz e do pop, com muitas intercepções que é aquilo que eu gosto. Uma das características destes discos é que atravessam vários universos e isso atrai-me.
O que é que torna um disco marcante? Porquê estes e não outros?
Eles têm todos uma razão de ser, apesar de serem diferentes razões de ser. Por exemplo, o “Both sides now” da Joni Mitchell foi um disco que me marcou e ainda marca porque fiquei logo fascinado pela questão dos arranjos, pela voz da Joni Mitchell e pela envolvência toda. Comecei a ouvir este disco para aí em 2007 e, desde então, não parei de ouvir. Lá está, há um gosto pessoal muito grande. Já dissequei muitas vezes este disco e tentei perceber o que estava ali em causa porque os arranjos são feitos pelo Vince Mendoza, que é um arranjador de referência para mim. Depois tens o “Chaos and creation in the backyard”, do Paul McCartney, onde ele toca os instrumentos quase todos e que tem uma produção incrível, as letras… depois o “Clapton” do Eric Clapton que é um disco que pisca muito o olho ao blues e ao jazz, a New Orleans com a participação do Wynton Marsalis… ou seja, há aqui uma data de coisas que me levam a escolher estes discos. Depois há os discos dos Expensive Soul e do Miguel que me marcaram pela minha participação neles. A “Symphonic Experience” foi incrível porque eu estava na banda há cerca de um ano e meio e resultou de um concerto de Guimarães, capital europeia da cultura. Foi uma semana de intenso trabalho com uma envolvência incrível. Não que o tenha ouvido muitas vezes mas marcou por isso. Tal como o “Crónicas da Cidade Grande” que foi onde tive um trabalho mais profundo de produção e arranjos e que marcou a minha carreira como arranjador e produtor. Os outros… são coisas que chegam até mim de alguma forma e pelos quais eu me apaixono.
Estes discos conquistam-te pela parte técnica ou pela parte emocional?
Essa é uma pergunta interessante porque todos estes discos têm esta parte emocional. Eu não consigo conceber uma relação afetiva com um disco se essa parte não for prioritária, ou seja, toda a parte técnica vem a seguir. E vem porque obviamente me interessa. É como gostarmos de carros e gostarmos de um Ferrari… nós podemos gostar muito do carro mas, sendo mecânico, também me apetece perceber como é que tudo funciona, não é? Há aquela parte que nos apaixona mas depois há a outra parte em que nos apetece perceber como tudo funciona. Há sempre essa atração primeira que não se consegue explicar. É um amor [risos], uma atração mais emocional.
Já te cruzaste com alguma música que não te cativasse a nível emocional mas que conseguisses reconhecer que tecnicamente estava bem feito?
Sim, claro. Isso depois já mexe com a questão dos gostos pessoais. Houve uma fase em que ouvi metal e ouvi algumas bandas… eu percebi que tecnicamente havia ali muito trabalho e coisas que eu gostava mas, no fim de toda esta viagem em que já passei por muitos estilos, estes [da lista] foram os que mais me marcaram.
Quando vemos aqui Chico Buarque e Caetano Veloso pode haver uma relação emocional muito maior do que pela questão técnica, não?
Sim, claro. O “Caravanas” do Chico Buarque pus aí porque não é que considere o melhor álbum dele mas como a regra era só depois de 2001. Mas o “Caravanas”, para além das músicas incríveis e da forma como ele recita os poemas dele, tem a parte toda dos arranjos, dos instrumentos e da forma como entra na história do Chico… são coisas que, a mim, me prendem a atenção. No caso do Caetano, não sei se vocês conhecem o disco mas foi um disco que ele gravou com os filhos e muito à base de vozes e guitarras, coisas tecnicamente muito simples mas que resultam muito bem. Esse disco, para mim, é a simplicidade das vozes, das melodias, da história. Por vezes não precisa de ser uma coisa tecnicamente incrível e para lá do estratosférico… a técnica é muito relativa.
A influência da Filarmónica Vaguense está cá?
Sim, claro. Se calhar por estar envolvido numa formação orquestral desde pequeno - e isto que eu estou a dizer é literal porque a minha primeira apresentação na banda foi na Procissão dos Passos em Soza e eu lembro-me perfeitamente que nessa apresentação não dei uma única nota. O meu único objetivo foi tentar acertar os passos, alinhar com os tipos à minha volta e segurar o instrumento. Mas estava automaticamente envolvido em trombetas, trompas, bombardinos… tudo o que era instrumento de sopro e percussão estava lá à minha volta. Isso refletiu-se logo desde muito novo porque sempre tive esta vontade e curiosidade de fazer arranjos. Lembro-me perfeitamente de quando comecei à frente da Orquestra Ligeira que nunca tinha tido uma aula de composição mas fazia os arranjos. Hoje, olho para trás e vejo muitos erros técnicos… mas que pouco importava na altura porque eu ouvia aquilo à minha maneira e tentava escrever e fazer com que a minha música fosse tocada por outros colegas. E há aqui muitos discos que têm essa formação orquestral… diria que quase todos.
Entre estes álbuns… há algum mais especial?
Eu diria que o da Joni Mitchell está no top 1 dos álbuns que eu mais gosto. Eu já o ouço há 15 anos e ainda hoje o ouço e descubro sempre algo diferente. Isso é uma coisa que me apaixona. Tenho esta ligação emocional e esta ligação técnica porque também já vi transcrições do que está escrito… há uma ligação muito forte. Se tivesse de escolher um, era este.
Como é que descobres outras músicas?
Faço um bocado de tudo. Ouço rádio e ouço de tudo para me interessa saber o que as diferentes pessoas vão ouvindo - não significa que goste de tudo. Depois há outra ferramenta incrível que é o Spotify e também dá para descobrir alguns destes álbuns.
Se tivesses um álbum só teu, como é que seria?
Eu acho que a beleza da música é podermos fazer coisas diferentes e ter experiências diferentes quase todos os dias. Eu acho isso incrível e é um dos grandes valores acrescentados desta minha vida. Eu sinto que a música que escrevo, mesmo para outros artistas, está sempre muito condicionada pela minha experiência e pelas minhas vivências da altura. Isto para dizer que há uma coisa engraçada que me tem acontecido… uma música que eu escrevi há algum tempo, original minha, passado uns tempos já não me revejo naquilo. É super engraçado. Pode ser estranho mas acaba por ser interessante ao mesmo tempo porque esta questão da arte é incrivelmente volátil. Passado uns meses já não faz sentido tocar ou compor isto e isso é a piada no meio disto tudo. Portanto, não consigo definir isso.
Mas há algum projeto que saibas que ainda queres fazer?
Tenho alguns projetos em mente que ainda não posso revelar [risos] que são um pouco diferentes e respondem a vontades minhas. Mas tenho perfeita noção que daqui a uns tempos vão aparecer outras coisas completamente diferentes. Cada vez que contacto com uma pessoa diferente isso pode mudar a minha perceção da música e artisticamente levar-me para outro lado. Daí não conseguir responder-vos.