É verdade aquilo que dizem? Se o José Giro não fosse farmacêutico, era artista?
Artista não porque eu não sei fazer nada [risos]. Até costumo dizer por brincadeira que nasci com as duas mãos esquerdas e não sou canhoto [risos]. Gosto de arte e faço pontes entre os artistas e outras entidades como empresários ou autarquias. Tenho a possibilidade, por conhecer as pessoas, de fazer com que as coisas aconteçam. E às vezes até me surgem ideias para obras, que eu não sei fazer, mas sei quem é que é capaz de a fazer. Eu não faço nada, não sei fazer nada. A única coisa que faço é pontes entre as pessoas. Sou muito de criar essas pontes, de fazer com que as coisas continuem.
Não fazer nada pode ser um bocado redutor… tem de haver sensibilidade, pelo menos.
Eu gosto muito da diferença. A diferença das pessoas e as próprias pessoas… uma certa loucura não me repele, até me atrai. Quer no sentido de ajudar as pessoas, quer no sentido de extrair o melhor delas. Uma pessoa fora da norma, ditos loucos, faz coisas anormais. Os normais só fazem coisas normais. É mais isso, é essa minha ligação a estas pessoas que me possibilita ajudar a que as coisas surjam porque meter as mãos na massa… não.
Essa sensibilidade e gosto nascem como e porquê?
Nasce fundamentalmente pelos amigos que fui tendo ao longo da vida. Também vivi numa república em Coimbra que me obrigou a ser relações públicas, a receber pessoas do teatro, do cinema, da escultura, da pintura… a organizar as festas, a organizar o jantar para os artistas, eles ficarem na república, eu ir para os espetáculos… desde que fui para Coimbra que essa sensibilidade foi aumentando. Por brincadeira até me chamavam o Giro Corleone [risos] porque sempre fui muito agregador de pessoas. E depois de ir conhecendo as pessoas, de ir a exposições, de ir a casa deles, de conhecer o processo criativo. Tudo é feito no sentido de partilhar os gostos que tenho e de poder mostrar as pessoas que gosto e que eu sei que têm valor. E às vezes até pago para as obras poderem acontecer… não ganho nada com isso, gosto é de ver as coisas. Sou muito grato de viver mas, fundamentalmente, dos amigos que tenho. No fundo, muito do que vivo deve-se às experiências que os meus amigos me proporcionam e sinto uma gratidão brutal.
A cultura é importante?
Não é só importante, é essencial. E a saúde é muito mais do que não estar doente, é algo mais abrangente do que não ter uma infeção ou uma dor na perna. A felicidade é das melhores coisas para a saúde e a cultura contribui para isso.
Mas também pode contribuir para o contrário.
Sim, também inquieta. Mas coloca as pessoas numa outra dimensão. Não é só a vida do dia a dia. Às vezes, as pessoas só vão à farmácia para ver a exposição e isso dá-me um gosto especial. Dá-me um gosto especial ver pessoas de pouca formação em termos académicos a ficarem admiradas com uma fotografia. Depois também podem dizer que não tem jeito nenhum [risos] e está certo. Mas envolveram-se e criaram opinião. Eu tenho um gosto especial em ver as pessoas satisfeitas e orgulhosas… a arte pública é uma prova disso. Esta possibilidade que eu tenho conseguido aqui para o concelho, acho que tem sido uma mais valia. Mas nem toda a gente pensará da mesma maneira senão o mundo caía.
Que obras públicas existem por perto que tiveram um empurrão seu?
A primeira foi a da pá que foi uma obra que moveu gente que nunca mais acaba. Tens o garfo mas que é mais do Pedro Silva. Tens a das árvores na rotunda da Vagueira…
E teremos mais, brevemente?
Sim, temos uma obra do Fernando Gaspar que surgirá brevemente. E há outras ideias como fazer um simpósio de arte…
Se Vagos quiser haverá sempre vontade de estar ligado à cultura?
Indiscutivelmente. Não me quero assumir como o único capaz de fazer isso mas gosto de fazer isso.