Conversa com a centenária Diamantina do Ti Cardoso

Do Areão ao Canadá... e uma bagagem com 103 anos dentro

Boa Vida
Boa Vida

Já com 3 dígitos “às costas”, fomos pôr à prova a sua memória e experiências passadas em Gafanha do Areão.

Se já foi conhecida em solteira como “Diamantina do Ti Cardoso”, já passou por “mulher do Castelhano”, hoje é uma “mulher dum raio” como carinhosamente a apelidaram ao saberem do seu segredo - “Meio copo de vinho, não mais!”, afirmou Diamantina de Jesus,  revelando ser este o elemento secreto dos suas 103 primaveras. Nascida em 1918 passou já por duas pandemias. Se da primeira se livrou, da segunda se cuidou e não a deixou bater à porta. Acredita que só Deus conhece o seu destino, mas força não lhe falta para seguir as pisadas da sua Avó Cardosa que só deixou a terra aos 114 anos. Diamantina de Jesus Paradinha e a sua recente companheira de 2 rodas partilham o mesmo espaço e hoje em dia rumam de 4 em 4 semanas, para casas diferentes, a dos seus filhos.


Passou a sua vida “agarrada à enxada e aos ancinhos, na terra e no mar à apanha do moliço”, arte que fez junto dos seus pais Amélia de Jesus Paradinha e Manuel da Cardosa e dos seus irmãos mais novos. “Governávamo-nos assim: de manhã, bem cedo, levantávamos da cama e íamos à maré recolher o moliço para semear as batatas. Tínhamos também o gado que trabalhava e fazia estrume. Antes éramos tolos pelo trabalho”.

Enquanto solteira ainda teve oportunidade de ir à escola, mas a experiência não foi muito boa. Tinha vontade de aprender, conta-nos, mas algumas coisas fizeram-na recuar logo. “Eram muitos garotos, alguns deles malcriados, e ainda batiam quando brincavam com as meninas. As professoras não queriam saber de nós. Depois disso, fui contar ao meu pai e nunca mais me levou à escola.” Consequência disso, não sabe ler nem escrever mas nada a preocupou quando chegou a altura de arranjar um namorico pois “para namorar não era preciso saber ler” diz assertivamente e entre risos. Precisou sim, pelo menos de escrever o seu nome, quando decidiu emigrar para o Canadá com o seu marido Manuel Vítor de Jesus Castelhano, aos 69 anos, para poder estar próxima dos seus filhos. Uma viagem que inicialmente seria de ida e volta, tornou-se sem data de retorno, pois já não quiseram voltar tão depressa. Vivia em Hamilton, uma cidade da província a Ontário, e lá, trabalhava para os filhos, ajudando-os nas suas lidas domésticas, a fazer a comida e a criar os netos.

Já velhotes e sem condições para estar noutro país, o casal regressou a Portugal, à Gafanha do Areão e com eles, regressaram também alguns dos seus filhos para dar apoio à centenária, depois de ter ficado viúva. Um amor que ela recorda com muito respeito e companheirismo, até ao final da vida do “seu homem” pois fazia questão de ir todos os dias visitá-lo ao lar onde se encontrava.

Com uma saúde de invejar, apenas toma 2 comprimidos por dia e nunca recusa o copo de vinho tinto às refeições, finalizando com o “cheirinho ao trevo” no café, mais conhecido por “café com cheirinho”.

Hoje em dia as suas forças impedem-na de caminhar e a audição já não é a melhor, mas a fala é dos sentidos mais apurados de Diamantina, não fosse a nossa conversa de quase uma hora e meia a recordar alguns momentos da sua vida. Companhia para falar é coisa que não lhe falta, tem os quatro filhos, dez netos, dez bisnetos e ainda três trinetos que, longe ou perto, mantêm o contacto com a centenária.



Casamento sem noite de núpcias

Não foi preciso piscar de olhos nem pedidos para dançar nos bailaricos que ia com o seu pai. Foi aos 19 anos, num batizado que Manuel Vítor conquistou com seu coração com a frase “é Diamantina, eu não te quero chamar comadre, quero chamar-te a minha Diamantina”. Namoraram quase dois anos e só aos domingos, na presença dos seus pais. “Jogávamos ao montinho (jogo de cartas) a ver quem ficava com mais figos passados, e ao “bico bico saldirico”. Casou, aos 21 anos em Vagos numa cerimónia com a habitual caminhada pela manhã. A noite é que fugiu à regra e não correu como, pelo menos, o seu marido esperava.

Lembra-se muito bem das palavras do Padre durante a missa do seu casamento: “Tem cuidado e muito cuidadinho. Hoje é o casamento e não podes dormir mais o teu namorado, tens de dormir na cama mais a tua irmã, e junto do teu pai e da tua mãe.” E assim foi, Diamantina na cozinha com as senhoras que lhe preparam a cama, Vítor Manuel na sala com os homens. A noite de núpcias só se deu passados três dias do casamento quando o marido lhe pede para ser “um verdadeiro homem casado.”


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