20 Anos, 20 fotógrafos - Deyvis Malta escolhe 20 fotógrafos que marcaram os últimos 20 anos

“Eu não publico os meus trabalhos, publico sim um lifestyle”

Cultura
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Um “gato-pingado da terriola” é assim que se intitula Deyvis Malta e não, David Malta como muitos o confundem em Choca do Mar (Calvão) e pelo mundo fora. Com apenas 33 anos, já tem uma carreira internacionalmente reconhecida na fotografia e é alvo de atenções para os que gostam do nu artístico. De analógica no pescoço e sempre descontraído, reservou uma tarde do seu tempo em Portugal para falar com O PONTO.


Quem é o Deyvis Malta?

Sou o Deyvis e nasci na Venezuela, em Barquisimeto, perto de Caracas. Vim para Portugal com 9 anos e fiquei cá. Aqui, em Portugal, foi um choque “do caraças”, não falava português, e perdi 3 anos de escola para começar no 1º ano cá em Portugal. Não conseguia comunicar com ninguém mas, por um lado foi bom ter começado do zero, facilitou muito na minha aprendizagem do português. 


Como foi o teu percurso pela escola? Foi lá que descobriste o gosto pela fotografia?

Fui estudar para o Colégio de Calvão, mas não cheguei a acabar o 12º ano. Conheci a professora Fátima Margarido que nos lançou um desafio para fazermos umas fotos. Nessa altura já andava a tirar fotos às escondidas e quando ela viu só me disse “Tu não percas tempo aqui no colégio, assim que acabar o 12º ano vai para fotografia porque tu tens mesmo jeito” Eu fiquei com aquilo na mente e nem sequer esperei para acabar o 12º ano. Abriu um curso no IPF [Instituto Português e Fotografia] no Porto e fui para lá estudar 3 anos. 


E depois do curso?

Depois de terminar o curso, andei por Londres e fiz lá o estágio do curso. Era suposto estar lá três meses, mas só estive 1 semana porque o clima era horrível e não me dava sem sol. 


Porque decidiste ir para fora de Portugal?

Aqui em Portugal é tudo um mistério e senti que os profissionais que já estão há muito tempo a trabalhar na fotografia rejeitam partilhar conhecimentos com os mais novos e foi por isso senti essa necessidade de ir para fora. Estive em Espanha também e [em 2009] em Nova York com um fotógrafo americano que trabalhava com grandes marcas. Foi lá que abri os meus horizontes na fotografia porque era ele que estabelecia as suas diretrizes e isso ainda não é possível cá em Portugal. Depois comecei a aprender ainda mais a técnica fotográfica (…) e esse americano percebeu que só me faltava a parte mais criativa. Ao fim de duas semanas, as grandes agências começaram a mandar modelos e ele deu-me liberdade para fazer os seus books e para criar o que eu quisesse. É uma abertura que aqui não existe. É muito à frente. Passados esses 3 meses vim para Portugal. 


Porque é que não continuaste lá?

Porque também sou muito ligado à minha família e a Portugal e não era capaz de estar muito tempo longe.


E quando voltaste para Portugal o que pretendias?

Andei um pouco à deriva. Queria criar um conceito, uma linguagem minha e tentar transmitir um estilo de vida através das minhas fotos. Andei a fotografar casamentos no Porto, o que me deu muito traquejo. Serviu para quebrar barreiras e saber comunicar com desconhecidos. Depois tive quase para deixar de fotografar porque estava desiludido, não fazia aquilo que queria e era uma frustração para mim. Fui para uma fábrica trabalhar. 

Enquanto trabalhava, fotografava amigas minhas. Cheguei a ir para a saída do metro de S. Bento [no Porto] e falava com raparigas estranhas e pedia-lhes para as fotografar. Depois comecei a falar com agências e comecei a fazer fotos com marcas de biquínis muito conhecidas. Pelo meio, houve umas marcas espanholas que me contactaram e calhou fazer uma marca espanhola de biquínis e essa sim, foi a rampa de lançamento para depois nunca mais parar. 


Como é que essa marca chegou?

Pelo Instagram. Eu não publico os meus trabalhos, publico sim um lifestyle, para as pessoas perceberem que é possível vender um estilo de vida através das fotos. Essa marca espanhola percebeu isso e veio até mim. Bastou fazer essa que depois parece que foi contagiante para as outras marcas. Houve um ano que fiz quase todas as marcas de biquínis portuguesas. Por um lado foi bom, por outro já cansava e tive de parar outra vez. Comecei a perceber que estava a estancar na criatividade e a fazer uma coisa que começa a ser muito repetitiva.


O que te trouxe o Instagram para além desse reconhecimento?

Com o Instagram podemos chegar a todo o mundo e conseguimos comunicar com as marcas que queremos através de uma simples mensagem. O Instagram foi e ainda é o meu portefólio. Mas às vezes também me apetece apagar tudo!


Porquê?

Chego a uma altura em que eu começo a ver tudo igual. As pessoas tentam imitar as cores, os planos e coisas que são muito pessoais e fazem parte da minha história. Não se preocupam em ser elas próprias, mas sim em ser alguém. E isso para o lado em quem está a ser copiado é terrível e mexe muito. Eu tenho fotos que sonhei com elas: às vezes acordo para escrever o que sonhei num bloco de notas que tenho ao lado na mesa-de-cabeceira. Sinto que hoje em dia, as pessoas têm uma sede gigante de aparecer e quando o artista aparece mais que a obra, alguma coisa não está bem. Eu não gosto de aparecer, o que me interessa é que conheçam o meu trabalho. 


Sempre gostaste de fotografar pessoas?

Não, antes fotografava plantinhas, bichinhos, odiava pessoas! No IPF é que comecei a ter contacto com a moda e as pessoas. 


Depois dos biquínis, continuaste na senda dos casamentos?

Sim, continuei nos casamentos mas para um tipo de casamento de luxo, quase parece cinema. Fui a workshop em Madrid e acabei por conhecer um nicho de fotógrafos espanhóis que fazem fotos de casamento pelo mundo todo e então comecei a viajar com eles. Fiz casamentos na Índia, na Nova Zelândia. Fiz casamentos de várias figuras públicas, sobretudo ligads ao futebiol preofissional. Fazíamos fotojornalismo, era um dia em que andávamos a 300 à hora, mas o resultado final é surreal. Nesse tempo, vivi em Barcelona.


Como é o Ensino em Espanha?

A Espanha está muito à frente na Arte. O ensino também está muito direccionado para a Arte e é muito mais fácil ter uma ligação com ela. Desde cedo que aprendem várias artes, cerâmica, costura, etc.. Quando mais cedo tiveres contacto com a arte, mais sensibilidade ganhas e mais pontos de vista também.


E depois de Barcelona?

Depois de Barcelona lancei-me sozinho, focado nos biquínis e lingeries. Queria estudar uma linguagem, um conceito, uma cor, textura para ser único. Andei cerca de 4 anos a estudar uma cor. O meu objetivo era encontrar um filtro que resultasse tanto ao sol como à sombra, estando num fundo azul ou num fundo de relva, e isto é muito difícil de conseguir. 

Um dos meus objetivos era obter uma pele dourada nas modelos de biquínis. Gosto de ver a textura das peles, os pelos, os poros. Odeio ver pele de bebé, porque ninguém é assim. 

Hoje em dia, fazer 3 marcas de biquínis portuguesas é suficiente, porque eu sei que tenho uma marca muito própria e ver as marcas com fotos iguais acaba por perder o impacto que devia ter. Cheguei mesmo a recusar trabalhos – também para me proteger a mim. 


Sabemos que viajas muito para Bali. Como passaste daqui para Bali?

Fui lá uma vez fotografar uma marca espanhola e adorei o ambiente, a vibe de Bali. As pessoas são surreais e facilmente me adaptei àquilo.


Como é a energia de Bali?

Não há stress, as pessoas têm uma preocupação extrema com a mente e praticam muito yoga. Há muito pouco consumo de drogas e isso dá até pena de morte, bem como o tráfico. Eles acreditam no Karma, ou seja, se deres o bem, recebes o dobro do bem e então, têm uma forma de estar na vida completamente diferente da nossa. Vi muito potencial naquele país e experimentei colocar no Instagram a dizer que estava em Bali para tentar chegar às marcas de lá. Nesse processo, comecei a usar hastags e localização no Instagram para as marcas de Bali verem o meu trabalho e isso resultou.


Então Bali é a tua 2º casa?

Sim, é literalmente a minha segunda casa. Acho que um dia vou viver para lá e deixo Portugal, até porque também não lido nada bem com o frio. 


Conta-nos mais destinos que te marcaram..

Agora estou a tentar influenciar as marcas a ir para determinados sítios, para mostrar o lifestyle. Recentemente, fui para Tulum, no México e gostei muito. Tem um lado mais selvagem, mais sustentável. A última vez que lá fui andei nos bairros, no meio da floresta, conheci as pessoas, as crianças, com o objetivo de mostrar a aventura e fugir do lado turístico. 


Partilhas também muito conteúdo sobre culturas. Porquê?

Eu gosto muito de fotojornalismo. O meu trabalho final de curso, em 2008, foi numa aldeia na Serra da Freita (Arouca) - a Aldeia das 1200 cabras. Nessa altura, o padeiro passava 1 vez por semana, as pessoas não tinham acesso a medicamentos e andavam descalças. As pessoas dormiam em camas de palha, com sacos de ráfia por cima e aquela realidade tão diferente de nós, fascinou-me. Ainda agora estive em Zanzibar e estavam lá os masai (tribo africana), e fotografei as mãos, os cabelos, as pulseiras e uso essas fotos para incluir no meio da apresentação de outras, para não ser apenas uma passagem de produto. Sinto que os clientes não estão a contar com isso e gostam. 


De onde vêm essas inspirações e o gosto pelas culturas?

O país onde nasci tem influência. Tenho até um índio tatuado no braço. Um dia fiz uma viagem da Venezuela à Patagónia de “jipe 4x4” e tive contacto com uma tribo nómada na Amazónia e foi das experiências mais brutais até hoje. Posso contar-vos que para ser aceite, eu e os rapazes com quem estava, tivemos de passar um teste porque essa tribo acredita que “os brancos” têm maldade. Então, tivemos de nos despir e olhar para mulheres nuas a ver se tinhamos uma ereção. Apesar de primitivos, são lindos de morrer. 


E à Venezuela, pensas voltar?

Voltei lá em 2010. Fiquei triste, estava muito mais violento e já havia défice de muita coisa – papel higiénico, preservativos. Agora já não penso voltar, apesar de ter lá toda a família do meu pai. Em 2010, encontrei uma Venezuela ainda mais envelhecida. Vários dos meus amigos e pessoal da minha idade já tinha falecido por acidente ou por crimes pesados. Aquilo é mesmo à “lei da bala”. 


Também te procuram particulares?

Sim, dispostas a pagar qualquer preço, mas eu não aceito tudo porque a sessão é o que vai dar menos trabalho. O que está por trás, até chegar a um conceito e ao tema da sessão é o mais difícil fazer. Às vezes as pessoas vêm com uma ideia e eu acabo por desconstruir tudo porque acho que não se adapta à pessoa ou não consigo ver a pessoa nessas situações e demora muito mais tempo a construir a ideia. Gosto de levar as coisas à minha maneira.

Sou muito exigente comigo mesmo e já estou habituado a que as pessoas não acreditem no meu trabalho até terem provas. Por isso, habituei-me a seguir as minhas ideias e não ir com a dos outros. 


E as quais são os teus fotógrafos de eleição?

Sei de muitos fotógrafos que são uma inspiração para mim, e gostava de os partilhar para conhecerem fotógrafos que até nem são tão falados. [Na lista ao lado]


E de todos os fotógrafos qual foi o que mais te inspirou?

Nunca trabalhei com o André Brito, é um fotógrafo que explora muito o nu artistírtico. Acho que trabalha muito bem a luz e é uma referência mundial nessa área.


E modelos portuguesas qual te deu mais gozo fotografar?

A Margarida Corceiro, é muito divertido e é muito fácil fotografá-la porque ela tem a cara de uma autêntica princesa, para além se ser muito esforçada.


Define o teu estilo de fotografia numa palavra só?

Arrojado.


Como é a tua vida neste momento?

Ando sempre numa correria, ora estou na Choca, ora no Porto ou outro local, mas é disto que gosto e sinto-me realizado.

E pretendes fotografar o nu para o resto da tua vida?

Eu adoro este estilo porque é um desafio tentar mostrar o melhor de cada pessoa, tendo em conta que os corpos não são todos iguais. Há pessoas que nunca se viram em determinada pose e tu não precisas de estar numa pose banal para seres bonita. Acho que a maioria dos meus clientes veio por causa disso, dos nus e das poses. 

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