Basílio de Oliveira

“Sou um apaixonado por Vagos”

Vagos
Vagos

O lugar de São Romão foi berço, a 28 de junho de 1937, para Basílio de Oliveira. Com 85 anos volvidos, O Ponto falou com um “vaguense a sério” sobre toda a vida que dedicou ao associativismo, às coletividades, à política e a várias obras que trouxe para Vagos e para a região. E se lhe dissermos que este vaguense também esteve na génese da Universidade de Aveiro, cumprimentou Salazar e ainda acolheu o rei D. Juan Carlos, de Espanha?


Basílio de Oliveira nasceu no lugar de São Romão, na freguesia de Santo André. Assume-se como filho “do Vasco da Gama de Vagos”, curiosidade que o motiva a explicar que o pai, Manuel de Oliveira, “descobriu o caminho marítimo para a Venezuela” nos anos 50. “Foi ele que descobriu o caminho, ele foi o primeiro emigrante. O que é que ele fez? Quis dar o maior apoio possível às gentes da nossa terra que queriam ir para lá. Instalou-se lá a trabalhar e pediu a um advogado para fazer as cartas de chamada para as pessoas que estavam interessadas em ir para lá. Houve centenas de emigrantes aqui da nossa zona, foi ele que chamou para lá essa gente toda”.


A meninice foi passada em Avelãs de Cima com o tio, o Padre Manuel de Oliveira. Foi ali que ingressou na escola de Cerca, acabando a escolaridade primária e a 4.ª classe já na escola de Santo André. Dali partiu para o Seminário de Santa Joana Princesa de Aveiro onde esteve até ao 8.º ano e onde tirou o curso de Filosofia. Depois? Foi para Lisboa, para o Seminário de Cristo Rei, dos Olivais, em Lisboa, onde acabou por tirar o mestrado em Teologia Dogmática. Dali guarda vários episódios como as tardes passadas “a jogar à bola com grandes jogadores como Matateu e Eusébio”, assumindo-se como um verdadeiro matador em frente à baliza. “Marquei 120 golos”, conta. Um pequeno episódio desportivo que acaba enriquecido pelos episódios com D. Juan Carlos I ou com António de Oliveira Salazar. “Fui lá ao portão do Seminário receber o rei Juan Carlos. Na altura tinha uns 20 anos, talvez. Disse-lhe para fazer de conta que estava em casa dele e ele todo contente, ali ao meu lado. Falei em português mas ele percebeu [risos]”, contou. Outro episódio, recorda, foi no dia 17 de maio de 1959, “na inauguração do monumento ao Cristo Rei, em Almada”. “Eu assisti à inauguração. Atravessámos o rio num barco da Armada e houve uma cerimónia de grande nível. Na despedida, o Salazar também lá estava e eu fui representar o Seminário e cumprimentei o Salazar quando ele estava a entrar para o carro. Tive a honra de o cumprimentar na despedida. Já o Américo Tomás foi na receção”.


De regresso a Vagos

Acabou por regressar para Vagos com cerca de 30 anos. “Vim para a vida prática e tinha de me empregar porque os meus pais não tinham como me sustentar. Candidatei-me a um concurso das finanças e fiquei bem classificado e fui logo colocado nas primeiras vagas”, contou. Acabou por escolher Vagos e ficou na repartição das finanças durante alguns anos. Aproveitou novos concursos para promoção e chegou a liderar outras repartições de finanças em Aveiro e em Lisboa. E lá esteve, até se reformar após 36 anos de serviço.

E assim se lançou à vida política e autárquica. Em 1993 assumiu o papel de adjunto de Carlos Bento, que liderava a Câmara Municipal de Vagos na altura. Função que recorda com saudade, trazendo de volta os acordos de geminação realizados com a cidade de Bafatá, em Guiné Bissau, com a cidade de Mindelo, na Ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, com a vila de Dax, em França, e até com a cidade de Ceará-Mirim onde inaugurou a Praça da Cidade de Vagos, bem no centro da cidade. “Aqui foi implantado um barco alusivo à Arte Xávega”, contou.

Uma intensa vida que não se ficou apenas pelos acordos de geminação com Basílio de Oliveira a recordar uma das “jóias da coroa” da sua vida autárquica, a ligação criada entre Ouca e São Romão. “Entre Ouca e São Romão eram só praias de arroz, não havia mais nada. Para o povo de Ouca vir para Santo André tinha de ir dar a volta ao Boco ou ao Rio Tinto. Eu decidi avançar com o projeto de ligação entre São Romão e Ouca e a ponte foi feita de borla, pela Direção Hidráulica do Mondego. “A obra que ligou o concelho de Vagos à Bairrada e ligou a Bairrada ao Mar. Foi considerada a obra do Século CC, em vias municipais, no concelho de Vagos”, vincou.


Dissabores da vida política

Uma vida política ativa que também trouxe algumas mágoas, como recorda Basílio de Oliveira. “O projeto da variante. Sabe onde é o Cabeço das pedras? A estrada saía daí, passava em frente ao Cais do Moliço e ia sair acolá à entrada de Vagos. Era uma variante a sério que tirava o trânsito aqui do centro de Vagos. Outra mágoa que guardo… fui a Vale de Cambra para negociar, com o Dr. Carlos Bento, a compra do Martins e Rebelo para instalar os serviços municipalizados mas a política não nos deixou. E ainda fui a Oliveira do Bairro negociar a compra do terreno da cerâmica de Vagos para implementar uma zona urbanística e restaurar a chaminé como monumento municipal. E conservar a chaminé para ficar para a história… aquela empresa deu a vida a muita gente”, contou.

Já os moinhos de São Romão também foi um processo que não chegou ao fim. “Os moinhos de vento de São Romão são dos monumentos mais característicos e antigos do nosso concelho. Não só porque alimentaram muita gente mas também porque estão instalados numa zona que merece ser bem vista. Ainda hoje, do ponto de vista paisagístico, merece. Aqueles moinhos eram meus, herdei-os do meu pai. Eu falei com o Dr. Carlos Bento, disse que vendia à Câmara Municipal, que íamos restaurar e que ia ser uma obra monumental. Eles acabaram por me comprar os moinhos mas depois não foi avante porque nós saímos da Câmara e a o executivo do PSD abandonou esse projeto”.


Vida que se estende a associações vaguenses

Basílio de Oliveira foi um acérrimo defensor da imprensa. Para além de colaborar com o jornal Comércio do Porto, com o Jornal da Gândara ou com o Eco de Vagos este vaguense ajudou ainda a fundar jornais como O Ponto ou o Notícias de Vagos, onde também acabou por colaborar. Porquê? Pela vontade de divulgar tudo o que se faz bem em Vagos porque o município merece.

Mas foi muito mais do que isso. Ajudou a reativar valências da Santa Casa da Misericórdia de Vagos onde exerceu funções na Assembleia Geral, foi secretário da comissão de recuperação do Santuário de Nossa Senhora de Vagos, foi presidente da Comissão Política do CDS, foi presidente da Assembleia Municipal de Vagos, foi presidente do Centro de Educação e Recreio - conseguindo trazer a atleta Rosa Mota e o “bibota” Fernando Gomes a Vagos… foi muita coisa! Recorda até o mandato como vice-presidente no Futebol Clube Vaguense. “Nas festas de Vagos havia sempre, na terça feira, um grande desafio de futebol no estádio. Eu fui ao Porto convidar o Futebol Clube do Porto - porque nós éramos uma filiar - para virem jogar ao Vaguense. Fizemos aqui uma grande receção com um jantar no Mariluz e o Vítor Baía, a partir daí, começou a surgir no FCP até ser um guarda-redes internacional. Foi aqui, em Vagos, que ele começou! E perdemos por 1-0, eles ganharam [risos].


As “coroas de Glória”

A construção da ligação entre Ouca e São Romão é uma das obras de que mais se orgulha. Mas há mais. Durante a vida, Basílio de Oliveira escreveu vários livros. Um deles, de nome “A Luz que vem do Alto” e que ofereceu ao Santo Padre João Paulo II, acabando por receber um diploma com “Particular Benção Apostólica”, uma distinção rara em Vagos.

Mas há outra, de grande importância e que eternizou o nome de Basílio de Oliveira no livro “Do Sonho à Realidade”, do Monsenhor João Gonçalves Gaspar, escrito para assinalar os 25 anos da Universidade de Aveiro. Ali, naquele livro, diz-se que Basílio de Oliveira foi uma das vozes mais acérrimas para a criação da instituição na cidade. “Começou a falar-se na criação de três universidades no país… quando surgiu essa ideia, eu falei com o Dr. Orlando de Oliveira que era reitor do Liceu de Aveiro para fazermos força nos jornais, nas políticas, no Governador Civil. E ele gostou desta ideia. E começámos a publicar artigos a defender a criação da Universidade de Aveiro. Eu tive a sorte de ser colega do Dr. António Santos, de Anadia, que casou com a irmã do Ministro da Educação, o Dr. Veiga Simão. Eu fui falar com ele para ele falar com o Ministro. Tivemos sorte porque eles também fizeram força para isso e conseguimos a universidade para Aveiro.

Uma história repleta de episódios e dedicada a várias causas. “Olhando para estes 85 anos de vida, como é que se identifica?”, perguntamos. “Como um vaguense a sério”, termina.


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